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Uma expedição científica com um cheirinho de férias: O primeiro dia de descanso no centro ValBio – 9 de agosto

Depois de dias intensos no interior da floresta, o regresso a um espaço com mais conforto trouxe um contraste inesperado. Dormir num colchão, ter acesso a infraestruturas básicas e um ritmo menos exigente deveriam representar um alívio claro. No entanto, a ligação ao ambiente selvagem, à rotina do acampamento e à imersão total na natureza tornava difícil ignorar uma certa nostalgia pela vida simples no terreno. Este momento marca precisamente esse equilíbrio entre conforto e saudade, entre descanso físico e vontade de continuar no coração da floresta.

Esta manhã refletiu essa transição. Longe da pressão constante do trabalho de campo mais exigente, houve espaço para cuidar do equipamento, organizar ficheiros e garantir que tudo estava preparado para os dias seguintes. Este tipo de tarefas, muitas vezes negligenciadas, são fundamentais em qualquer expedição. Ao mesmo tempo, o contacto com a equipa e a observação dos processos de planeamento mostraram a complexidade por detrás de cada decisão no terreno, onde logística, ciência e tempo têm de estar perfeitamente alinhados.

Com o plano definido, a tarde trouxe de volta a ação, mas com um ritmo diferente. A missão de colocar audiomoths ao longo da transição entre floresta e áreas humanizadas tornou-se uma oportunidade única para explorar novos caminhos. Mais do que uma tarefa técnica, foi uma experiência de descoberta, onde cada passo revelava novas paisagens e levantava novas questões sobre o território e os seus limites. A incerteza do que iria surgir ao longo do percurso acrescentava uma dimensão extra de curiosidade e atenção.

À medida que a caminhada avançava, a floresta continuava a oferecer encontros inesperados com a fauna local. Espécies emblemáticas surgiam ao longo do caminho, reforçando a riqueza daquele ecossistema e a importância de o preservar. No entanto, essa abundância contrastava com a realidade que se aproximava: o limite físico do parque e a transição abrupta para zonas dominadas pela atividade humana. Esse contraste não é apenas visual, é também simbólico, mostrando de forma clara onde termina a proteção e começa a pressão sobre os habitats naturais.

O final do percurso, já na vila, trouxe uma nova camada à experiência. A presença humana, a dinâmica local, as infraestruturas e o quotidiano das pessoas revelaram uma realidade paralela à da floresta. Esta passagem entre dois mundos, o natural e o humano, reforça uma das ideias mais importantes de toda a expedição: a conservação não existe isolada. Está diretamente ligada às comunidades, às decisões humanas e à forma como ocupamos o território. E é precisamente nesse equilíbrio que reside um dos maiores desafios da conservação moderna.



Acordar depois da tempestade

Depois de uma semana na floresta, esta foi a primeira noite num colchão. Mas tenho de confessar que preferia continuar a dormir na floresta. Embora faltassem algumas comodidades, como casa de banho e um chuveiro. Algo que na verdade era fácil de concretizar com algum planeamento mais cuidado. Em Portugal existem vários locais que resolveram o problema com algum engenho, e em ambos os acampamentos, água não faltava. E era nessa mesma água que eram lavadas as loiças das refeições. E inclusivamente onde o pessoal tomava banho, numa pequena piscina natural que se formava. Porque não captar alguma água para um duche solar que servisse para tomar banho, e depois a água infiltrava-se na terra, era novamente filtrada pela terra e regressava ao rio mais limpa.

 

O descanso matinal

A manhã foi tranquila. Aliás, nem peguei na câmara. Descarreguei as fotografias todas, coloquei as baterias todas à carga, e limpei o material todo. Embora não estivesse muito sujo, caminhei imensas horas com a câmara e objetiva de fora, e acabam por ir acumulando pó e humidade. E são estes pequenos detalhes que prolongam a vida útil do material. A gopro também precisava de ser toda limpa, vídeos removidos, cópias de segurança. Enquanto isso o resto da equipa reunia, discutiam o plano de ação seguinte, e o que podíamos ou não podíamos fazer nestes dias. Eu ficava apenas a ouvir, visto não ter o conhecimento que nenhum deles tem. E ajudava apenas em matérias de horas e planeamento, tentando compreender se teríamos tempo de fazer tudo. E em que matérias eu conseguiria ajudar para que eles conseguissem realizar todo o plano que tinham em mente. Claro que é mais fácil escrever agora, do que estar lá no momento. Mas acredito que a equipa deu o seu melhor para conseguir alcançar todos os objetivos traçados. Eu podia apenas documentar e registar alguns dos nossos momentos. Embora por vezes não me sinta um verdadeiro fotojornalista, por facilmente me distrair com os animais, e facilmente largar a câmara para ajudar a montar redes, capturar animais ou processar os animais. Na realidade, um dos papeis que mais gosto é o de apontar tudo. Acho que é um dos trabalhos mais importantes, podemos recolher imensos dados. Mas se forem mal etiquetados, se não tivermos uma boa base com os dados todos certinhos, perdemos todo o trabalho. E eu, como sou meio perfeccionista, acabo por gostar de ir escrevendo tudo e tento nunca me esquecer de nenhum dado. Já tive situações onde isso aconteceu, e eu estava do outro lado a dar as informações, mas alguém esqueceu-se de as apontar… e um dos dados mais críticos acabou por ficar esquecido. O que foi pena.

 


A tarde de passeio, ou quase

O plano ficou decidido perto da hora do almoço. O Ricardo iria ficar a tratar de autorizações, planeamento, pedidos de carros, e outros trabalhos pendentes da universidade. A Thalya ficou no centro a tratar de trabalhos relacionados com a Universidade. Sobrava eu e a Vanessa, eu queria ver bichos. Logo, tinha a tarde livre para tudo. A Vanessa tinha uma apresentação para terminar, mas também queria ser útil e ajudar o resto da equipa. E por isso, ficámos encarregues de algo super complicado, super difícil, super exigente… colocar audiomoths! Ou seja, caminhar pela floresta, e a cada x metros colocar um aparelho que vai ouvir os morcegos à noite. Por mim, era perfeito!

E assim, depois do almoço. Preparei o equipamento, desta vez o tripé e algum material iam ficar em casa. Pois, o caminho ia levar-nos até à vila de Ranomafana. Íamos entrar na floresta, percorrer a crista, sair do outro lado do parque, e descer até Ranomafana. À primeira vista parecia simples, mas a tarefa ficava mais complicada devido às dificuldades que a Vanessa tinha vindo a atravessar. E por isso, fazia sentido não irmos tão carregados e tentar fazer a caminhada ainda de dia. Logo, menos paragens para fotografar animais.

Fizemo-nos ao caminho juntamente com o Mamatina, o nosso guia local que vivia em Ranomafana. E que conhecia os caminhos todos. Mostrámos num mapa o caminho que gostaríamos de fazer. A ideia era colocar os audiomoths na zona de transição entre floresta e fora da área protegida. Eu na altura não sabia o que iriamos encontrar, se um descampado gigante, se zonas de floresta, se teria casas, nada. E por isso, estava entusiasmado e assustado ao mesmo tempo.

 

A ave azul

Ao entrarmos no parque virámos à esquerda, o único caminho que ainda não tínhamos feito. Embora fosse ainda dentro da área turística, por ter menos animais, é menos frequentado. A caminhada foi a subir e a descer, mas pelo meio íamos encontrando algumas aves. A primeira foi o Paradise flycatcher. Uma ave com uma cauda gigante, isto nos machos, as fêmeas são mais simples. E depois, voltámos a encontrar a magnifica ave azul, o Madagascar Blue Vanga!! Aqueles azuis são fantásticos mesmo, e no meio de uma floresta verdejante, contrasta com facilidade para as fotografias. Mais à frente apareceu um Crested Drongo, que se escondeu por entre a vegetação, mas deixou tirar algumas fotografias. E finalmente tivemos um encontro com um Madagascar Cuckooshrike, que ficou bastante perto e deu para umas fotografias boazitas. Depois saímos da floresta e começamos a descer na área de transição. 



A transição para a civilização

A floresta terminou de repente. E entrámos num campo agrícola, a transição era assustadora. Ali terminava o parque, ali começava o território do ser humano. A ausência de floresta, isto é, de árvores permitia ver a paisagem ao nosso redor. E dava para fotografar a vila à distância, ao mesmo tempo, perceber que nós teríamos de caminhar até lá. E ainda era longe! Ali perto escutávamos a água do rio a passar, e o que parecia ser uma cascata. Perguntei logo ao Mamatina se íamos passar por ela, e ele acenou que sim. Fiquei entusiasmado e seguimos caminho a descer a montanha. Antes de chegarmos ao ponto de observação da cascata, chegámos às plantações de banana. Logo ali ao lado da floresta, bananeiras a perder de vista. O nosso caminho seguia pelo meio delas. E de repente, a cascata e o rio. Tiradas umas fotografias, e seguimos caminho para Ranomafana. Que ficava logo ali ao virar da esquina. Não tirei fotografias, mas deixei a GoPro a filmar o tempo todo.

As primeiras casas que passámos eram feitas de barro e telhado de palha, sem chão. E algumas crianças brincavam ali ao lado do caminho. Mais à frente chegámos às primeiras casas, que o Mamatina explicou seriam do governador e alguns dirigentes, que nem moravam ali permanentemente. Mas tinham umas casas gigantes. Depois atravessámos uma ponte estreita cheia de pessoas a atravessar, claramente era final do dia e muitos regressavam as suas casas. Com os produtos que tentaram vender na rua ao longo do dia. O Mamatina contou que a ponte original teria caído numas cheias há uns anos, e que nunca a reconstruíram. Ainda conseguíamos ver os suportes de ferro torcidos ao lado da estrutura atual, que foi construída em cima dos antigos pilares. Passámos ao lado do campo de futebol, onde algumas crianças jogavam, descalças, e a vontade de jogar com eles era muita. Mas tínhamos de continuar até ao centro da cidade, e ver se nos arranjavam transporte de volta ao centro ValBio. Supostamente haveria uma carrinha que ia trazer os trabalhadores à vila e nos podia levar de volta. E por isso, fomos rapidamente para o centro para não a perdermos.

Pelo caminho vimos a maior teia de aranha do mundo, entre casas, eram à vontade uns 3 metros de um lado ao outro. As mesmas aranhas que estavam no centro ValBio, ali, tinham comunidades gigantes. Até chegarmos ao centro da Ranomafana, ainda com alguma vida, mas claramente a diminuir de intensidade à medida que o dia chegava ao fim. Ainda conseguimos ver a azafama que deve ser ao longo do dia, com pequenas bancas de venda ao longo da estrada principal.

Ficámos sensivelmente trinta minutos à espera, até que a carrinha do centro ValBio chegou para nos levar até ao centro e ao fim de dez minutos estávamos de volta. Ainda havia alguma luz e conseguimos ver o percurso desde Ranomafana até ao centro e ao mesmo tempo ver para o outro lado do rio. O percurso que nós fizemos até à vila. E ao chegarmos ao centro algumas andorinhas preparavam-se para dormir num telheiro que ficava à entrada, e acabei o dia a tirar-lhes fotografias. E seguimos diretos para o jantar. Que já estava com fome e cansado, e a vontade de ir para a cama era gigante.



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