Uma expedição científica com um cheirinho de férias: Dormir rodeado de sons e lémures – 5 de agosto
- Diogo Oliveira

- há 1 dia
- 4 min de leitura
A primeira noite na floresta foi estranha. Não sei se foi o cansaço a falar mais alto, mas chegar à cama e ao saco de cama foi um alívio. O dia anterior fizemos a maior caminhada de sempre, com todo o equipamento às costas, chegámos e montámos o acampamento, para ir montar as redes e tentar capturar morcegos. O saco de cama quentinho soube a uma cama num hotel de 5 estrelas.

Acordar com os sons da floresta
A primeira noite foi super tranquila, mas eu estava ansioso por acordar cedo e explorar a floresta antes do pequeno-almoço. Claro que não me iria afastar do acampamento, até porque não tínhamos uma hora combinada, mas iria procurar animais aos primeiros raios de luz. Coloquei o despertador e deixei a Vanessa a dormir na tenda.
O nosso acampamento
O acampamento era composto por meia dúzia de tendas, algumas montadas debaixo de pequenos telheiros. Havia uma zona de cozinha com uma mesa e um WC em madeira, simples, com um buraco no solo. Ainda assim, era um acampamento perfeito.
Depois da minha volta matinal — que, na verdade, consistiu apenas em ficar parado a escutar a natureza — voltei para junto das tendas, onde a Vanessa, o Ricardo e a Thalya já estavam prontos para o pequeno-almoço.
Seguimos todos juntos até à pequena cozinha, onde os guias malgaxes já se encontravam. Entrámos ali quase como estranhos. Eu tentava absorver tudo: desde os pedaços de carne pendurados por cima do lume para não atrair moscas, às loiças prontas para lavar — tarefa que seria feita no rio —, passando pelos pratos e copos de alumínio e pelos bancos de pedra com azulejos, um pouco semelhantes a algumas zonas de piquenique em Portugal.
Sentámo-nos para o pequeno-almoço enquanto discutíamos o plano para o dia. Era uma refeição simples: pão com manteiga, café (que eu não bebo) e um chá muito estranho — podia jurar que sabia a café queimado, ou talvez arroz queimado. Não consegui beber, mas a Vanessa gostou. Acabei por beber apenas água, e não fiquei nada chateado com isso.
O resto do acampamento estava completamente integrado na floresta. Sabendo o que esperar, levei uma lona, que tanto podia servir para proteção contra a chuva como, neste caso, para colocar no chão debaixo da tenda, evitando que ficasse molhada durante a noite e ajudando a manter o interior limpo. Permitindo também descalçarmo-nos em cima dela e evitar entrar com sapatos cheios de lama. E, acreditem, havia muita lama!
Mas o mais impressionante era a quantidade de floresta à nossa volta. Os caminhos entre telheiros e tendas não eram clareiras abertas, mas pequenos trilhos rodeados de vegetação. O sol praticamente não chegava ao solo e, nestes dias mais frios, sabia bem apanhar um pouco de sol, mas as árvores não deixavam. Foi uma experiência incrível e que repetiria sem hesitar.
As aves e borboletas do acampamento
Uma das vantagens de trabalhar com morcegos é que tínhamos o resto do dia livre, bem quase livre, havia necessidade de preparar o equipamento de captura dos morcegos. E havia um outro trabalho importante, colocar audiomoths no meio da floresta, com uma distância de 500 metros entre eles. E tendo o dia livre, foi isso que fomos fazer. Eu não conseguia fazer muito, e por isso, aproveitava para fotografar os animais que ia encontrando pelo caminho. Focando-me principalmente em insetos que ia encontrando, pois os lémures e as aves andavam mais escondidos àquela hora do dia. E as poucas aves que consegui fotografar nunca permitiram grandes fotografias.
Casal de lémures a dormir por cima das tendas
Mas o melhor momento estava marcado para o fim do dia. Regressados ao acampamento depois de colocar todos os audiomoths, ficámos a descansar um bocado e quando estávamos a preparar o equipamento, heis que o Ricardo viu dois lémures a passar por cima do acampamento. Corri a pegar o equipamento e voltei ao local, na esperança que ainda lá estivessem. E felizmente que estavam, na verdade estavam a alimentar-se tranquilamente. O que permitiu tirar imensas fotografias e fazer diversos vídeos. O mais engraçado é que eles acabaram por ficar a dormir numa das árvores por cima das nossas tendas, enquanto nós fomos buscar o material de captura a correr e fomos para os pontos onde íamos trabalhar naquela noite. Com o coração cheio =)
Mais uma sessão de capturas
O trabalho começava sempre ao final da tarde. A equipa deslocava-se para trilhos florestais, clareiras ou zonas próximas de cursos de água, locais onde os morcegos costumam voar ao anoitecer. Montávamos redes especiais, praticamente invisíveis, chamadas redes de neblina, posicionadas nos corredores naturais de voo. Depois, só restava esperar. À medida que a noite caía, a floresta transformava-se completamente.
O local de captura não ficava longe do acampamento, o que nos permitia ir jantar ao acampamento, neste caso metade da equipa primeiro e depois a outra metade. Montámos as redes todas disponíveis. Na verdade ainda tínhamos redes, mas não tínhamos canas suficientes (algo que foi tratado nas próximas capturas pelos nossos guias, Mamatina e Nirina).
Quando um morcego fica preso na rede, a equipa desloca-se rapidamente para o retirar em segurança.
Cada animal é cuidadosamente libertado da rede para evitar qualquer lesão. Seguem-se medições científicas: peso, comprimento do antebraço, identificação da espécie, sexo e estado reprodutor. Alguns indivíduos são fotografados e registados antes de serem libertados novamente.
Madagáscar possui dezenas de espécies de morcegos, muitas delas exclusivas da ilha. Existem morcegos insectívoros, frugívoros e nectarívoros, todos desempenhando papéis essenciais no ecossistema. Alguns controlam populações de insectos, outros ajudam na dispersão de sementes e polinização de plantas. Sem morcegos, muitos destes ecossistemas simplesmente não funcionariam. E ainda assim, continuam a ser animais frequentemente mal compreendidos.
Os anfíbios e invertebrados
Ao contrário do que muitos imaginam, a floresta tropical não dorme. Insetos começam a cantar, rãs surgem em todos os cantos, lémures nocturnos deslocam-se nas copas das árvores e, invisíveis para nós, centenas de morcegos começam a caçar. Trabalhar à noite significa também lidar com chuva, lama, humidade constante e terreno escorregadio. Mas é também quando a floresta mostra o seu lado mais misterioso.
Apesar da riqueza natural, Madagáscar enfrenta enormes desafios ambientais. Desflorestação, agricultura intensiva e pressão humana continuam a reduzir áreas de habitat natural. Projetos científicos ajudam a compreender melhor as espécies existentes e a importância de preservar estes ecossistemas. Conhecer é o primeiro passo para proteger.




























































































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