Uma expedição científica com um cheirinho de férias: Mais uma caminhada e uma noite de morcegos – 6 de agosto
- Diogo Oliveira

- há 2 horas
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Acordámos satisfeitos com a noite anterior, mas sem grande tempo para apreciar tudo. Tínhamos de arrumar o acampamento rapidamente, para que os carriers levassem o nosso equipamento, tendas e roupa até ao local do próximo acampamento. E embora tenhamos ficado acordados até tarde a capturar morcegos, logo ao nascer do sol os carriers já estavam no acampamento à nossa espera. Ou seja, mais uma grande caminhada pela frente! Se estava preparado? Não! De todo! Ficar à noite a tentar capturar morcegos, carregar equipamento e tentar fotografar animais, acordar cedo para procurar mais animais... tudo isto estava a começar a fazer efeito no meu corpo. Mas quem conhecia o terreno dizia que aquele acampamento era muito fixe. E que estava repleto de cientistas a realizar os mais diversos estudos. E por isso, ganhei novas energias e comecei a arrumar tudo, logo após o pequeno-almoço.

Arrumar o primeiro acampamento
A segunda noite soube ainda melhor que a primeira. O cansaço físico tinha desaparecido, acordei cedo e comecei a arrumar tudo. As malas da roupa, juntamente com a tenda, teriam de sair ainda antes de irmos tomar o pequeno-almoço. O nosso cozinheiro, sim, tínhamos um cozinheiro só para a nossa equipa. Estava pronto com o pequeno-almoço e com o nosso almoço, ele tinha acordado ainda mais cedo que nós para preparar tudo. Cheio de fome, cheio de vontade de explorar, arrumei tudo rapidamente. Fiquei à espera que a Vanessa arrumasse tudo também, e seguimos para o pequeno-almoço. As nossas mochilas estavam em sacos de arroz, e seguiram com os carriers para o próximo acampamento. Acho que chegaram ainda antes de nós termos terminado o nosso pequeno-almoço. Os nossos pequenos-almoços eram muito simples, aliás, a vida no meio da floresta assim o determina, nos primeiros dias tínhamos pão e manteiga. Tínhamos café, mas como eu não bebo, acabava por ficar apenas com água. E havia um chá de água da cozedura do arroz que eu detestava… sabia a água queimada, preferia ficar só pela água. Noutros dias o pequeno-almoço era arroz branco com ovos mexidos.
Nova caminhada
Depois da barriga cheia, estava na hora de voltar a caminhar em direção ao novo acampamento. Este era ainda mais dentro da floresta. E eu bem tentava saber quanto tempo iriamos demorar, uns diziam três horas, outros mais de cinco horas. Não sabia quanto tempo teríamos de caminhar, mas estava pronto para procurar mais uns animais pelo caminho. À frente iam os nossos guias, Mamatina e Nirina e o nosso cozinheiro. Depois ia usualmente o Ricardo e a Thalya, e finalmente ia eu e a Vanessa. Pelo caminho o Ricardo e a Thalya foram colando audiomoths, que seriam recolhidos na viagem de regresso.
Nesta caminhada começaram os problemas a sério. A Vanessa infelizmente teve um problema de saúde. Nada de grave, e não iria impedir a continuação da expedição. Mas iria envolver algumas mudanças. Desenvolveu um problema nos joelhos, que a impedia de caminhar à sua velocidade normal. E por isso, acabámos por ser os mais lentos. A ideia era o resto da equipa conseguir ir colocando os audiomoths, e quando os apanhássemos já teriam tudo colocado. E assim foi. Para não sobrecarregar a Vanessa, eu tirei tudo da mochila dela e transferi para a minha, se a ideia era distribuir algum do peso entre nós os dois. No final, acabei por ficar com o peso todo. Na mochila dela, estavam os casacos extras, a nossa comida, e alguns cabos que eu levava comigo. Não me queixo de nada, temos de conseguir ultrapassar estes contratempos. (e mais tarde eu arranjei uma solução)
Quase ao final do dia chegámos ao acampamento. Bem, não estávamos bem no acampamento em si. Mas na parte superior do acampamento, onde os nossos guias estavam a preparar o terreno para as nossas tendas. Neste já não teríamos umas coberturas todas modernas, mas a velocidade com que eles arranjaram uma cobertura para a tenda foi incrível. Um ramo aqui no chão, outro ali, corda para aqui, corda para ali, e pufffff… um espaço na floresta para a nossa tenda. Antes sequer de irmos à zona central do acampamento tivemos precisamente a montar tudo, para que o material pudesse ficar guardado dentro da tenda enquanto íamos planear a sessão da noite.
Primeiro que tudo tivemos de andar a jogar ao quem pertence o saco de arroz, e a tentar adivinhar onde estavam as nossas tendas nos sacos de arroz. Feito o jogo de tetris, metemos mãos à obra e montámos a nossa tenda. Ligeiramente inclinada, mas dava para dormir sem cair ribanceira abaixo. Eu disse que estávamos no topo do acampamento, pois, era literalmente a crista de uma serra. A zona do caminho era a mais direita, e a partir daí ficava inclinado. A nossa tenda como era para duas pessoas era a maior, e por isso, ficou no espaço maior. Mas isso também implicava ficar mais inclinada na borda.
Com as tendas montadas, era altura de ir até à zona central do acampamento e ficar a conhecer os espaços. A zona de refeição, a casa de banho e onde ficava o rio para irmos buscar água. E aí sim, deu para perceber o tamanho do acampamento que se estendia por uma grande área da floresta. Num pequeno declive, com diversas tendas em pequenos socalcos. Nem parecia que estávamos a largos quilómetros da civilização. No meio de uma floresta densa. Rodeados de lémures. Que em certos momentos começavam a implicar uns com os outros e a barulheira quebrava o silêncio da floresta. Foi uma sensação inexplicável.
O passeio pela floresta
Mas no meio de tanta emoção, havia trabalho a fazer. Tínhamos uma saída para tentar capturar mais morcegos na floresta nesta noite. E era preciso definir o local. E ainda tínhamos um par de audiomoths que podiam ser colocados para gravarem pelo menos uma a duas noites. Reunimos a equipa e definimos o plano. Devido à situação da Vanessa, ela iria ficar a tratar de preparar o material para a sessão noturna, confirmar redes, verificar sacos de recolha, e certificar-se que todo o material que iriamos precisar estava nos respetivos sacos. O Ricardo foi com o Nirina ver uma suposta gruta localizada bastante perto do acampamento. Sobrava eu e a Thalya para irmos colocar audiomoths, juntamente com o Mamatina.
Preparei o material fotográfico, e segui atrás deles. Claro que o ritmo ia ser louco. Mas sabendo disso de antemão, deixei a Sony 200-600mm na tenda, e levava apenas a macro mais o flash, a grande angular e uma objetiva que ainda não tinha dado muita utilização. A mítica Sony 70-200mm f/2.8. Claro que não iria permitir fotografar vida selvagem, ou neste caso, aves e lémures. Mas iria permitir fazer algo que ainda não tinha conseguido fazer. Fotografar a floresta. Todos aqueles verdes. Uma paisagem sem fundo definido, onde tudo eram folhas, e grandes árvores. Percorremos caminhos apenas utilizados pelos investigadores, que estudam os lémures e precisam de andar sempre bastante perto deles. Mas isso significava que eram caminhos fechados pela floresta. Bastava eu ficar uns três metros para trás, e deixava de os ver. Sendo que existiam caminhos à esquerda e direita, para além do principal. Embora tivéssemos o percurso definido, e o telemóvel da Vanessa para nos ajudar a orientar, facilmente nos podíamos perder caso nos separássemos. Por isso, acabava por ir sempre bastante perto. Relativamente ao telemóvel da Vanessa, era o único que tinha uma app que permitia ver o mapa offline. Visto que no meio da floresta não existe ligação de telemóvel, apenas o de satélite. E por isso, descarregámos os mapas offline. Ele permite utilizar a app como GPS, registando em tempo real a nossa localização.
Colocados os audiomoths todos, regressámos ao acampamento a tempo de uma mini pausa antes de irmos montar as redes.
A gruta dos morcegos
Esta noite seria diferente. Montámos as redes num caminho perto da pequena gruta com morcegos. A ideia seria tentar capturá-los a caçar perto da gruta. Mas também espreitar o movimento perto da gruta. E planear como capturá-los à saída da gruta. Infelizmente não capturámos o número de morcegos que pretendíamos, mas conseguimos capturar dois morcegos. O que foi bom, visto que nas últimas noites não tínhamos capturado nada. Ficámos todos animados e com esperança que no dia seguinte tivéssemos ainda mais sorte. Pois, foi possível definir uma estratégia para capturar os morcegos a sair da gruta. Onde montar as redes, o que bloquear, entre outros. Que o Ricardo tratou de forma brilhante!
Infelizmente a Vanessa não estava a conseguir caminhar, e não conseguiu descer, atravessar o rio, e juntar-se à equipa na sessão de captura. Eu vim jantar com ela a meio da sessão, e depois juntei-me a ela no final da sessão para mais uma noite a dormir no meio da floresta.






































































































































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