Uma expedição científica com um cheirinho de férias: Regresso ao centro ValBio – 8 de agosto
- Diogo Oliveira

- há 2 dias
- 5 min de leitura
O regresso ao ponto de partida raramente é apenas uma caminhada de volta. É um misto de cansaço acumulado, momentos inesperados e pequenas histórias que acabam por marcar toda a experiência.
Entre a surpresa de uma noite de capturas bem-sucedida, encontros inesperados com outras espécies e uma longa travessia pela floresta, este dia acabou por ser uma síntese perfeita da expedição: exigente, imprevisível e profundamente recompensador.
Mais do que o destino final, foi no caminho que aconteceram alguns dos momentos mais marcantes. Porque, na natureza, nunca sabemos exatamente o que nos espera a seguir.

A surpresa
Acordei cheio de energia. Na noite anterior, fiquei juntamente com a Vanessa a descansar. O resto da equipa foi capturar morcegos. E só ao pequeno-almoço iriamos descobrir quantos conseguiram capturar. Agora, mais uma vez, era altura de arrumar as malas, arrumar a tenda, e despachar tudo para dentro de sacos de arroz. O sol ainda estava a aparecer junto ao horizonte quando nos levantámos e começámos a arrumar tudo. As malas estavam despachadas, faltava desmontar a tenda. Mas primeiro. O pequeno-almoço. Porque o nosso cozinheiro também iria seguir de volta para ValBio. E chegámos ao pequeno-almoço ficámos a saber que tinham capturado 32 morcegos. Fogo, na noite em que não fui… capturaram 32 morcegos. Que fixe. Fiquei mais descansado quando o Ricardo disse que realmente o espaço era muito pequeno, e ainda bem que não tinha ido. Mas que teria mais oportunidades para fotografar mais espécies de morcegos. Mas o melhor ainda estava para vir. Vieram à nossa mesa dizer que uma das outras equipas de investigadores tinha capturado um mouse lemur. E se nós gostaríamos de assistir ao processamento do individuo. Claro que nós biólogos alinhámos logo e seguimos atrás. Que bichinho mais adorável. Tal como fazemos com os morcegos, foi medido, pesado, e neste caso foi marcado com uma tinta temporária para que fosse possível identificar caso voltasse a ser capturado.
O bastão de ferro
Tínhamos uma grande caminhada pela frente. E, o tempo de descanso do dia anterior serviu para idealizar uma coisa super simples, mas que iria revelar-se fundamental para o resto da viagem. Como sou meio jeitoso a inventar coisas. E, como ando sempre preparado para um pouco de tudo. Tinha praticamente todos os materiais para o conseguir construir. Um bastão para a Vanessa. Na verdade, aproveitei o resto de uma das canas que serviam para as redes de captura de morcegos. Foi só preciso cortar ao tamanho da Vanessa, e acrescentar uma corda para ela agarrar sem ficar magoada. Não era nada profissional. Mas foi perfeito para a ocasião. Até porque a caminhada ia ser exigente.
Os sacos de arroz
O mais impressionante para mim nem era o facto dos carriers demorarem metade do tempo a chegar ao centro ValBio. Era que eles às 6h da manhã já tinham caminhado desde a vila de Ranomafana, por caminhos florestais, até ao acampamento. Iam carregar o nosso material de volta a ValBio e seguiam a pé de volta a Ranomafana. Alguns descalços. Com sacos gigantes em cima da cabeça. A cantarolar grande parte da viagem. Pelo canto do olho pareci ter visto alguns a ir meio a correr. Para chegarem a horas de ainda almoçarem em casa. (um à parte, nós chegámos ao final do dia a ValBio).
A manhã a caminhar
Mochilas arrumadas, tudo colocado dentro dos sacos de arroz, mochila com o equipamento fotográfico às costas, tripé preso de lado. Acho que estava pronto para uma nova aventura. Ou achava eu. Ia preparado para fotografar vida selvagem pelo caminho, mas vi alguns locais interessantes para fotografar paisagem durante a caminhada até a ambos os acampamentos. E ia mentalizado para tirar umas fotografias de lá. Mais uma vez a equipa separou-se. Eu e a Vanessa íamos à frente! Juntamente com o Nirina e o nosso cozinheiro. A Thalya e o Ricardo partiam na direção oposto com o Mamatina para recolher os audiomoths que tínhamos colocado dois dias antes. Como eles iriam conseguir caminhar mais rápido que nós, deveriam ter tempo de recolher os audiomoths, e alcançar-nos à hora do almoço.
Estávamos quase a chegar ao local do primeiro acampamento quando voltámos a encontrar os lémures pretos e brancos. Fiquei a imaginar se seriam o mesmo casal que tinha filmado e fotografado uns dias antes, quando ali ficámos acampados. Sendo que estava praticamente na hora do almoço e eles estavam a preparar-se para dormir. Acabei por ficar para trás a filmá-los, enquanto a Vanessa caminhava lentamente até ao acampamento.
O primeiro acampamento
Finalmente chegámos ao primeiro acampamento. Mais ou menos metade da caminhada estava realizada. Enquanto esperávamos pelo resto da equipa aproveitei para fotografar alguns geckos que estavam todos contentes a apanhar sol nos telhados das tendas.
Alguns minutos depois o resto da equipa tinha-nos alcançado. Foi tempo de almoçar rapidamente e seguir caminho. Ainda faltavam umas horitas de caminhada. O Ricardo saiu disparado para recolher os restantes audiomoths. A Thalya acabou por fazer a parte final da viagem praticamente ao nosso ritmo. Aproveitando para tirar algumas fotografias também.
A caminha interminável
Com o passar das horas continuávamos dentro da floresta. Mas chegámos a um ponto conhecido, a parte turística do Parque Natural de Ranomafana. Isso dava animo que estaríamos perto de chegar ao centro ValBio. E apesar de o cansaço sem imenso. Voltar a encontrar lémures acabou por animar. Já a meio do caminho turístico, voltámos a encontrar alguns lémures do bamboo. Que chegaram a descer ao solo e a caminhar mesmo à nossa frente. E embora as fotografias não tenham ficado nada de especial. Estar ali, estafado, cheio de fome, a pedir uma cama, a ver aqueles lémures a caminhar mesmo à nossa frente. Que incrível.
A chegada ao centro ValBio
Estávamos a poucos metros da ponte amarela que marca a entrada para o parque e que neste dia praticamente marcava o fim da nossa viagem pela floresta. A luz estava quase a desaparecer, e decidi tentar aproveitar ao máximo aquela luz suave. Coloquei a Sony 70-200mm para tentar fotografar alguma paisagem mais fechada, fotografar aquela ponte espetacular, registar o caminho entre o parque e o centro ValBio. As barraquinhas com produtos à venda, que agora estavam todas encerradas. A realidade é que eram quase 17h. E já tinham ido todos embora descansar. Nós ainda estávamos a caminhar. O Ricardo já deveria ter chegado ao centro ValBio, juntamente com os nossos guias. O caminho entre a entrada do parque e o centro ValBio era por uma estrada movimentada. Mas naquele instante, a magia aconteceu. O sol iluminou a floresta e o nosso caminho, e tirei algumas das fotografias que mais gostei. Uns metros mais abaixo. A entrada para o centro ValBio, e ao fundo os nossos sacos de arroz. Fomos arrumar tudo e seguimos para o jantar.
























































































































































































































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