• Diogo Oliveira

Missão: Insucesso a Fotografar um Musaranho-de-dentes-brancos, Mamíferos de Portugal

Ainda me questiono se devo ou não partilhar estas fotografias de um Musaranho-de-Dentes-Brancos (Crocidura russula). O animal foi fotografado já morto, embora estivesse vivo alguns minutos antes. Encontrava-se dentro do court de ténis em Sacavém, no centro da cidade. Era odiado e mal amado, "transportador de doenças" e "deviamos de matá-lo já!", isto foi o que ouvi, embora ninguém o tenha morto depois de convencidos de que ele não fazia mal nenhum...apenas tinha fome e queria banquetear-se com uns insectos. A história deste pequenote começou numa manha bem cedo, quando fui treinar ténis. Enquanto realizávamos um jogo de treino, avistei algo a mover-se perto da rede e não hesitei em ir ver o que era. Imaginem qual foi o meu espanto quando vi este pequeno musaranho à procura de comida junto à rede.


Claro que não consegui terminar o treino, a principal preocupação era o bem-estar do animal. O court de ténis é um local perigoso para estes pequenotes, especialmente se se encontra alguém a jogar. Podem ser pisados ou levar uma bolada, mesmo que a bola venha simplesmente junto ao chão, eles são demasiado frágeis para aguentar com a pancada. Por isso, estavamos constantemente a verificar onde ele se encontrava para não o magoar-mos. O treino acabou e pude observá-lo sem nunca o agarrar (eles são pequenos mas mordem bem!!).


O campo encontra-se dividido em placas, e na junção existe uma pequena falha que fica cheia de restos de folhas, entre outros, e a técnica dele era percorrer todas estas falhas na esperança de apanhar algum insecto desprevenido. Existem também alguns buracos nos muros que rodeiam o court onde ele conseguia entrar (e sair do court porque estes buracos escoam a água para o exterior do campo) e passado uns segundos voltava a aparecer em marcha-atrás. Andei largos minutos deitado no chão a observá-lo, pude constatar que a sua visão não parece ser muito boa mas que possuem uma excelente audição, bastava raspar as unhas no chão e ele vinha a correr ver o que se passava. O seu focinho pontiagudo também o ajuda a capturar os insectos.


Durante alguns dias ele era o centro das atenções, até ao dia em que decidi ir fotografá-lo. Recebi o sms a confirmar que ele estava lá no campo e que ainda estava vivo 4 dias depois do primeiro encontro e fui a correr com a máquina para o fotografar. Cheguei ao campo e não o via, até que o encontrei morto numa das falhas. Possivelmente alguma bola atingi-o e ele não resistiu. O conflito com os seres humanos é sempre o maior problema para estes animais, muitas vezes confundidos com ratos. Por isso apenas o fotografei já morto, mas nunca irei esquecê-lo e os bons momentos que nos proporcionou.