Os desafios de criar um livro de animais do zero ao lançamento - O guia de fauna de Lisboa e os meses de trabalho invisível
- 3 de jul.
- 10 min de leitura
Durante meses trabalhei num projeto que sempre quis fazer: um guia de fauna de Lisboa. A ideia era simples. Criar um livro acessível, visualmente apelativo e cientificamente rigoroso, que ajudasse aos habitantes de Lisboa a descobrir a rica biodiversidade que a sua cidade possui. A execução, no entanto, revelou-se muito mais complexa do que eu imaginava.
Tudo começou quando o meu computador avariou, naquela altura fiquei sem capacidade de editar fotografias e vídeos. Foram três meses sem um computador capaz de trabalhar. Acabei por ter de procurar novas ideias, alterar planos, e na altura decidi meter mãos à obra. Literalmente. Estávamos em outubro de 2024 quando esta aventura começou.
Um guia de fauna não nasce de um dia para o outro. Foram meses de trabalho silencioso: selecionar as espécies, rever bibliografia, escrever textos, organizar a informação de forma útil para quem quer aprender, estruturar o livro, escolher tipografias, alinhar imagens e textos, testar formatos, ajustar cores, preparar ficheiros para impressão até conseguir ter uma cópia do livro nas mãos. Tudo isto feito com o objetivo de criar um livro que fosse não só informativo, mas também agradável de usar no terreno.
E claro, há as fotografias. Claro que é impossível agradar a todos, e existem sempre coisas que gostaria de alterar depois de ter lançado o livro. Mas lembrem-se. Eu fiz tudo sozinho!
A realidade da impressão independente
Antes de procurar soluções de print on demand fui pesquisar por empresas gráficas perto de onde moro. Acima de tudo queria verificar os valores que pediam por impressão, para ter um valor comparável. Sabendo que o preço de impressão tem vindo a variar imenso nos últimos anos. E, não foi nenhuma surpresa quando constatei que os valores pedidos, eram acima das minhas capacidades. Cerca de 12.000€ para imprimir 1000 livros. Sendo que isso me levantava outros problemas, tinha de ficar com 1000 livros em casa para vender. Caixas e mais caixas, com o risco de se estragarem com a humidade. Não sabendo quanto tempo iria demorar a vender os 1000, se é que alguma vez, iria vender os 1000 exemplares. E, por isso, acabei por procurar novas soluções. Não só que fossem mais simples para a minha situação atual, mas também que fossem mais amigas do ambiente, com menos desperdício.
Optei por imprimir em print on demand. À partida parece a solução ideal: não há necessidade de investir em grandes tiragens nem de armazenar caixas de livros na garagem. Mas essa flexibilidade tem um preço. Que na altura eu desconhecia por completo. Com tudo isto em mente fui procurar serviços online que fizessem impressão sem ter em conta a quantidade de livros impressos.
O primeiro serviço que procurei foi na amazon, que é dos mais conhecidos e talvez mais fácil de chegar aos clientes. Quem não vai à amazon procurar livros ou outros produtos? Logo à partida esbarrei na parte da edição, ou seja, o primeiro passo foi descobrir como tinha de editar o livro para conseguir imprimir lá. Parecia mais fácil à primeira vista, mas obrigou a duas semanas de edições extras para encaixar no modelo que eles pretendiam. E seguiu para primeiro teste.
Escolhi o tipo de impressão básico, com impressão a cores e com capa mole.
Os primeiros testes
Quando finalmente consegui terminar tudo mandei vir a primeira cópia! Foi um stress. Primeiro demorou cerca de duas semanas a chegar. Eu estava em pulgas para ver, depois de quase 6 meses de trabalho árduo, queria sentir o papel nas minhas mãos. E quando finalmente chegou… a deceção total… a qualidade deixava muito a desejar, as fotografias mal se viam de tão má que era a qualidade. Sendo que tinha escolhido a impressão mais simples (básica), sabendo os riscos que corria. Mas não tendo uma ideia do resultado, a única forma era testar. Mas confesso que fiquei desiludido e pronto a atirar a toalha ao chão, pois não queria ter de passar pelo processo todo novamente. A Vanessa sugeriu experimentar a IngramSpark, na internet diziam imprimir com qualidade, melhor que a Amazon. Nesta o processo de enviar foi complicado, mas depois de mais uma semana de trabalho, lá seguiu para impressão. E voltei a esperar duas semanas para sentir o resultado nas mão. Para meu espanto... veio igual ao da Amazon! Igual…
Eu não sabia o que fazer nesta fase, estava de cabeça perdida. Tinha duas opções. Continuar a tentar, ou simplesmente desistir. No estado em que o livro veio impresso tentar vendê-lo a 20€ era um valor demasiado elevado, sendo que iria ganhar cerca de 3€ por cada livro vendido a 20€ através da loja da amazon. Se comprasse impressões, já ganhava cerca de 7€ por cada livro vendido. Ora estes valores não pagam contas. Estava a parecer impossível fazer os guias como desejava.

A mudança de paradigma
A primeira versão lançada foi a inglesa, em impressão básica. Podia testar a versão impressão premium, mas para isso teria de criar um novo ISBN. Ou traduzir o guia para português em tempo record. A solução passou por uma nova gráfica de print on demand. Eu voltei às pesquisas e encontrei mais umas quantas. Algumas o processo de inscrição ou de envio do documento para impressão eram demasiado complicados. E outras os valores pedidos eram demasiado elevados, um livro de 300 páginas com um custo de impressão superior a 30€ por livro. Era impensável. A Vanessa acabou por descobrir a Clube de Autores. Gostei imenso da interface e das possibilidades de escolha. Passei por um novo processo de edição do documento para poder adicionar a esta nova plataforma, visto que cada uma delas utiliza um uploader diferente e por isso, são necessárias alterações ao ficheiro final. Mas quando estava a preparar tudo uma surpresa agradável, tinha a capacidade de escolher a gramagem do papel. Algo que na amazon não é permitido. E podia escolher entre offset 90 ou offset 150! Um dos tipos de papel mais usados para livros com muitas fotografias. Embora não seja nenhum expert em papel e impressões, consegui aprender algumas coisas quando fiz o guia de fauna da tapada da ajuda. E isso estava a ajudar-me agora. Terminei as edições todas e estava pronto a mandar imprimir em capa mole e com papel offset 150! Ou seja, uma qualidade superior (semelhante ao premium da amazon). A 29 de julho de 2025 lançava a versão inglesa no clube de autores! O primeiro exemplar impresso chegou. E estava PERFEITO! Era aquilo mesmo!!!

A versão portuguesa
O stress acumulado nestes meses deixou-me sem grande vontade de fazer publicidade aos livros. É um bocado frustante tentar vender algo com uma qualidade abaixo do que desejamos. E, por isso, acabei por ficar mais desiludido ao longo de todo o processo e deixando a publicidade aos guias um bocado de parte. E a versão portuguesa começou a ser planeada logo após ter recebido a impressão vinda do Clube de Autores. Traduzi todos os textos, as imagens, tudo e mais alguma coisa. Foram mais uns meses de trabalho. E a 20 de novembro de 2025 saia finalmente a versão portuguesa, primeiramente no Clube de Autores, e depois de mais umas edições também na Amazon mas com impressão Premium. Mais de um ano depois de ter começado a planear e a construir o guia, finalmente tinha as duas versões lançadas e no mercado. Estava na hora de vender e ficar com a conta recheada, ou não.
O preço do conhecimento
Eu sempre disse que sou muito mau a vender o meu peixe! Sempre. Adoro fazer coisas, e inventar, planear novas ideias, fazê-las sair do papel. Mas uma vez terminadas, usualmente ocupo a minha cabeça com outros projetos. Sendo que tenho sempre imensas ideias e projetos em andamento. E, assim, chegou a parte mais chata. Definir um preço para o guia e começar a vendê-lo! Lembrem-se, esta aventura começou em outubro de 2024, e só cerca de 10 meses depois é que tinha conseguido algo que eu gostava! Até então, estava a trabalhar sem ver um tostão, a ficar com dores de cabeça, e entre o desistir ou insistir.
Depois de estudar, isto é, fazer as contas. O preço final de venda do livro é de 35€. Ora cada livro sai, mais ou menos, a 19€ por impressão (eu sei que nunca devemos revelar os truques e valores, mas só sabendo é que podemos ajudar outros que queiram seguir o mesmo caminho). Se for eu a vender diretamente ao consumidor final, consigo ter alguma margem de lucro. Sem contar com as despesas de envio (cerca de 2,50€ por livro), ou o combustível gasto para ir aos CTT deixar as encomendas (e o parquímetro). Se a venda for realizada através da plataforma de impressão, neste caso, a amazon ou o clube de autores, a situação fica mais complicada, visto que recebo entre 6 a 12 euros por cada livro vendido. Nalguns casos, ainda menos do que isso. E desses valores ainda tenho de emitir fatura e pagar impostos, 6% de impostos por cada livro vendido.
À primeira vista parece uma margem confortável, mas rapidamente deixa de o ser quando se contabiliza o investimento inicial. Design, preparação, tempo de trabalho e anos de fotografia. Na prática, seria necessário vender mais de 2500 exemplares apenas para recuperar o investimento. O resultado é simples: os lucros são praticamente inexistentes.

O valor que não se vê
Quando alguém pega num livro destes, sente a página entre as mãos, olha com atenção para as fotografias e lê o texto como um menú. O que não se vê são os anos de observação no campo, as madrugadas a tentar encontrar algum animal mais esquivo, as caminhadas com equipamento pesado, as tentativas falhadas, as espécies que só aparecem uma vez, as fotografias que ficaram desfocadas, o equipamento que teve de ser substituído, as horas em casa a ler livros e mais livros, nada disso aparece.
Não se vê o tempo passado ao computador a tratar fotografias, a confirmar identificações ou a rever textos. Não se vê o trabalho que está por trás de cada página. Um guia de fauna independente não é um produto industrial. É um projeto pessoal que junta ciência, fotografia e divulgação.
Podemos ainda fazer um exercício para tentar compreender alguns valores. Comecemos pelas fotografias, se atribuirmos um valor mínimo de 40€ por fotografia (um valor modesto para fotografia de natureza) estamos a falar de um património visual de cerca de 20.000€ (cerca de 500 fotografias). Estas imagens representam anos de saídas de campo, equipamento, deslocações, tempo de espera e conhecimento acumulado. Num projeto comercial tradicional, este seria um dos maiores custos de produção. Num projeto independente, é um investimento invisível.
A isto somam-se os textos, que também têm valor profissional. Escrever ciência acessível exige conhecimento e tempo. Não é apenas descrever espécies à maluca, ou de qualquer forma, ou como achamos que é mais correto, é traduzir biologia para linguagem clara sem perder rigor. E depois temos ainda o design, ora eu tirei biologia, não sou de artes, não tinha conhecimento sobre edição de livros, e tivee de aprender tudo do zero. Sozinho. Foram meses a ver vídeos. A tentar descobrir como tudo funcionava, até finalmente ter confiança para usar o software sem grandes dificuldades. Embora ainda não saiba fazer algumas coisas que gostava de saber. Mas com tempo, vou chegar lá e aprender. E neste caso a tradução para português.
Traduzindo por crianças, foi mais de um ano de trabalho, assumindo o vencimento mínimo daria cerca de 50€ por cada dia de trabalho. Arredondando tudo, 850€ por mês, 14 meses (com os subsídios de férias e natal), são cerca de 11.900€. Juntando as fotografias, temos 31.900€. Felizmente o ISBN não sai assim tão caro, mas ainda acabei a gastar 200€ no processo todo. Temos ainda de contabilizar os gastos com o computador, com as licenças dos softwares, e com o consumo de eletricidade, que no final de um ano chegou aos 4.500€. Estes são os valores normais, claro que podem oscilar mais para cima ou mais para baixo. Consoante as capacidades de cada um.
E se tivermos empresa, temos ainda os gastos inerentes à empresa, neste caso, segurança social, contabilista, e outros impostos associados que chegaram aos 3.974€. Ou seja, neste ano que estive a trabalhar nos guias "gastei" sensivelmente 40.574€. Se ganho cerca de 15€ por cada guia vendido, de forma a conseguir ficar a zeros, necessito de vender pelo menos 2700 guias para conseguir cobrir as despesas normais.
Agora se calhar não devia de considerar o ordenado mínimo, porque estavamos a falar de um trabalho técnico, de um mestrando. Se bem que os valores não distam muito do ordenado mínimo atual, ainda faria uma diferença. E, para muitos, este valor do ordenado mínimo já é considerado lucro! Para mim, eu considero trabalho, porque não estive a gozar da vida, estive ao computador a escrever, a preparar, a organizar. Não estive a brincar, ou a passear, ou sentado no sofá a ver filmes e séries. Para mim, o lucro vem depois de todas estas despesas pagas, a partir daí eu considero que seja lucro proveniente da venda dos livros.
A dificuldade de fazer divulgação científica independente
Uma das maiores surpresas deste projeto foi perceber como é difícil vender um livro com informações sobre os animais. Mesmo entre pessoas interessadas em natureza, as vendas são lentas. E, sem vendas é impossível recuperar o investimento.
Não existem praticamente apoios para projetos independentes de divulgação científica local. Não há financiamento, nem subsídios, nem compras institucionais significativas. Muitas vezes, quem faz este tipo de trabalho fá-lo por paixão e assume todos os riscos.
No fundo, a realidade é esta: projetos como este só existem porque alguém decide investir tempo, dinheiro e energia sem garantia de retorno. E, como viram nas contas apresentadas (eu sei que alguém as vai refutar, e dizer que faziam em menos tempo, e por menos dinheiro), preciso de vender muitos livros para recuperar o meu investimento e tempo. E, por vezes, não vale a pena o tempo investido. Infelizmente.
À data de hoje, 2 de julho de 2026, quase 6 meses depois, consegui vender cerca de 45 exemplares de cada um dos guias. São 650€ que ajudaram a pagar algumas despesas pendentes, mas ainda aquém do desejado. Não quero com este post “obrigar” amigos e conhecidos a comprar o guia, quero ajudar e alertar outros que pretendem fazer guias a conhecer a realidade, a saber os valores a pedir, e a ir à luta. Pelo menos pensarem em investir em publicidade, mas sem esquecer que esses valores tem de entrar para as contas das despesas.
Porque continuo a fazê-lo
Apesar de tudo, continuo a acreditar no valor deste tipo de trabalho. Um guia de fauna local pode ajudar alguém a identificar a primeira ave que viu num parque. Pode despertar curiosidade. Pode aproximar as pessoas da natureza que existe dentro da cidade.
E, às vezes, é isso que justifica o esforço. Embora também ache importante que se perceba o outro lado: fazer divulgação científica independente é difícil, financeiramente arriscado e raramente compensador.
Quando alguém compra um livro destes, não está apenas a comprar papel e tinta. Está a apoiar anos de trabalho invisível e a tornar possível que projetos semelhantes continuem a existir.
Antes de pensarem em gastar dinheiro em coisas imateriais, lembrem-se dos pequenos. Lembrem-se que existem pessoas a tentar mostrar o mundo que nos rodeia, e que na maioria dos casos fá-lo sem grandes recursos, sem ser compensada, sem receber os devidos méritos… continuando nas sombras, a lutar por um mundo melhor. E não falo apenas de mim, mas de tantos outros que como eu lutam para mostrar o mundo.















































































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