• Diogo Oliveira

Artigo: Abutre-preto, Aves de Portugal

O abutre-preto (Aegypius monachus) é uma espécie mundialmente quase ameaçada (NT), no entanto, em Portugal o seu estatuto de conservação é criticamente em perigo (CR). Atualmente decorre um projeto LIFE Habitat Lince-Abutre que visa protegê-lo e ao seu habitat.


Este abutre do velho mundo é a maior ave de rapina da Península Ibérica, e uma das maiores da Europa. Nidifica na região mediterrânica, principalmente na Península Ibérica, Sul de França e outras regiões mais a sul (como a Grécia). A sua população reprodutora Europeia encontra-se estimada entre os 1450 e os 1477 casais, no entanto mais de 90% dos pares reprodutores, cerca de 1340, localizam-se na vizinha Espanha.

Abutre-preto (Aegypius monachus) num campo de alimentação na Herdade da Contenda.

Prefere habitar regiões rochosas e com grandes declives, usualmente florestadas com pinheiros ou carvalhos, e onde as correntes de ar ascendentes criadas pelos ingremes montes facilitam a descolagem. Os montados são os locais de eleição para a alimentação, este complexo sistema agro-pastoril, onde o número medio de árvores por hectare é de apenas 50 e o principal uso do solo é o pastoreio de gado, revelou-se um excelente habitat para os abutres-pretos procuraram carcaças de animais (mortos).


A dieta deste magnífico e imponente necrófago consiste em carcaças de animais de pequeno e médio porte. O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) é o elemento chave da sua alimentação e as recentes diminuições das populações de coelho-bravo levaram à diminuição dos recursos alimentares. O aumento das áreas de criação de gado e o aumento das regiões e herdades destinadas à caça grossa (montarias), contribuem para a diminuição das fontes de alimento para esta espécie, que ao contrário do mais abundante grifo, prefere pedaços mais pequenos para se alimentar. As alterações nas políticas agrícolas comuns (CAP) e nas regras de segurança alimentar também originaram uma diminuição dos recursos alimentares, pois o gado que morre por causas naturais é recolhido pelos proprietários.

Abutre-preto (Aegypius monachus) num campo de alimentação na serra da Malcata.

Este necrófago consegue procurar alimento por grandes superfícies e chega a percorrer enormes distâncias, devido à sua grande envergadura (asas grandes) e tamanho, possui uma grande facilidade em aproveitar as correntes de ar naturais. Os seus requerimentos energéticos e a imprevisibilidade espácio-temporal dos seus recursos naturais obriga-o a percorrer enormes distâncias para encontrar alimento. O tempo percorrido à procura de alimento depende da quantidade de luz disponível e das condições climáticas. Na primavera eles dispõem de mais tempo de voo (cerca de 11 horas), no entanto, no inverno esse tempo é drasticamente reduzido (apenas 7 horas), obrigando-os a levantar voo mais cedo e perto do crepúsculo, para maximizar o seu voo. Os dias chuvosos impedem o seu voo na maioria dos dias de inverno.


A criação de comedouros, autênticos restaurantes para aves necrófagas (tal como o grifo e o abutre-preto) podem ser uma solução, no entanto, a solução perfeita será conservar o seu habitat de alimentação, o montado. No entanto, o montado tem vindo a desaparecer. Este habitat semelhante a uma savana tem vindo a ser sucessivamente substituído por monoculturas, tem sido abandonado, sofrido sobre pastoreio e nalguns casos foi convertido em culturas irrigadas. Os seus locais de nidificação estão usualmente localizados perto dos montados.


Abutre-preto (Aegypius monachus) durante as contagens de aves de rapina e necrófagas com o CEAI.

O abutre-preto nidifica em árvores de grande diâmetro, baixas e com poucas árvores em redor, em zonas do terreno ingremes e a grandes distancias das estradas de acesso. Os ovos são colocados entre Fevereiro e Março, e a(s) cria(s) permanece(m) no ninho durante mais de 110 dias. Mas a impredictabilidade na obtenção de alimentos envolve grandes investimentos parentais. No entanto, os indivíduos em nidificação encontram-se obrigados a regressar todos os dias aos seus ninhos (ou colonia) e possuem um comportamento de forrageadores mais centralizado.


A sua escolha do local de alimentação é um conjunto de fatores entre os habitats disponíveis e a distância aos mesmos. Para o conservar há que preservar árvores velhas e antigas. Há que manter as zonas de nidificação como um santuário de abutres e sob proteção especial, e manter outros locais de possível nidificação mas ainda não utilizados, com poucos distúrbios e sem o corte de árvores, tal como avaliar possíveis alterações no habitat e o seu impacte no abutre-preto. Os motivos do seu desaparecimento encontram-se associados à perda do habitat, à diminuição dos recursos alimentares disponíveis devido a alterações nas práticas agrícolas e pastoris. A última e principal causa de mortalidade e desaparecimento do abutre-preto é o envenenamento.


Para mais fotografias consultar a galeria desta espécie no link: GALERIA ABUTRE-PRETO